segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Pasquarelli - quest social e quest ambiental

Vital Pasquarelli - A QUESTÃO SOCIAL E A QUESTÃO AMBIENTAL
O desenvolvimento sustentável (DS) é qualificado, com freqüência, talvez em boa medida em virtude de hábitos de retórica (acadêmica sobretudo), como “um conceito”. Entretanto, há autores (como E. Leff) q parecem preferir claramente a sua qualificaç como “um discurso”, com a intenç de, no exercício da crítica, apontar: - a polissemia q o DS pode apresentar, incluindo-se aí um espectro variado e conflituoso de posições polit e epistemológicas; - o fato de q há indefiniç, ausência de comprometimento e/ou um caráter vago entre, por um lado, as declarações de intenções ou perspectivas apontadas sob o nome DS e, por outro lado, as medidas político-institucionais q deveriam realmente efetivá-las; - os deslizamentos discursivos q o DS apresentou e vem apresentando desde o seu surgimento na cena internacional, isto é, deslizamentos na direç da perda ou distorç do potencial político-institucional e epistemológico do equacionamento entre desenvolvimento e ambiente em uma direç alternativa; entre outros aspectos relevantes.
De qualquer maneira, devemos neste momento discernir dimensões e conceitos relativos ao DS. Assim, esta rápida observaç inicial quanto à propriedade da nomeaç como conceito ou discurso (ou outras formas de nomeaç), tem por objetivo registrar q estamos lidando com um conceito, conjunto de conceitos ou discurso(s) q apresenta a dificuldade de não ser passível de enunciaç como uma identidade unívoca. Esse alerta serve para o próprio texto adiante: todas as vezes em q, por força da retórica, estivermos falando em “o conceito de DS”, ou mesmo “o discurso do DS”, ou simplesmente “o desenvolvimento sustentável”, devemos ter em consideraç q se trata de limitações habituais da retórica e q o equacionamento entre desenvolvimento e ambiente não apenas é um processo em elaboraç, recente e contemporâneo, como é, em particular, um processo social entre posições por vezes conflitantes. E, inclusive, a produç do conhecimento científico é, a meu ver, uma das dimensões – e os acadêmicos um dos atores sociais – nesse processo; ou seja, a meu ver o potencial criativo e transformador do DS passa inclusive pela superaç da crença, comum, de q respostas científicas e/ou científico-tecnológicas teriam a palavra final para estabelecer soluções e definir o q vêm a ser o DS e suas dimensões. Esse posicionamento já é a meu ver uma dimensão do DS, se entendido a partir da perspectiva de uma “racionalidade ambiental” q se contrapõe à tendência inercial da “racionalidade econômica” do tipo de desenvolvimento hegemônico nas sociedades ocidentais, tanto + sob o neoliberalismo das últimas décadas, e à cultura tecnocrática.
Se preservado em seu potencial transformador, de redirecionamento civilizatório global, o DS é, no mínimo, um imenso desafio envolvendo as principais esferas e dimensões da vida social e a participaç real dos atores sociais. Assim, para os atores da academia (mas não somente para eles), são importantes os cuidados face à possibilidade de reificaç de tal conceito-noç-discurso; possibilidade q me parece bastante presente quando nos referimos a “o desenvolvimento sustentável”, tal como se fosse um ente institucionalizado ou um sujeito a guiar o presente e o futuro da humanidade. Apesar disso, e apesar de q vários autores prefiram falar em “sociedade sustentável” para evitar reducionismos ou deslizamentos discursivos, a expressão DS é, ao q tudo indica, a expressão q “pegou”, q parece estar sendo assimilada em tendência com maior força consensual (pela opinião pública nos estratos + informados). Após sua proposiç como um “conceito político” (como diz J. E. da Veiga), no Relatório Bruntland (1988), conheceu uma polarizaç entre as apropriações feitas por economistas e por ambientalistas - os últimos notavelmente céticos quanto à promessa transformadora do DS. Todavia, nos dias de hoje parece existir maior convergência ou menor distância entre esses pólos ao menos no q se refere à aceitaç da expressão, indicando q o DS estaria se firmando como o nome da moeda corrente em torno da qual se configuram as lutas pela sua significaç e institucionalizaç.
Feitas essas ressalvas, cabe, em rápidas pinceladas, esboçar o surgimento da proposiç do DS e, já em consonância com essas pinceladas, buscar discernir algumas dimensões e conceitos aí implicados de maneira central.
“DESENVOLVIMENTO”
Em primeiro lugar, é pertinente termos em vista acepções de “desenvolvimento” e algumas de suas démarches + significativas na modernidade ocidental capitalista. Em largas passadas, podemos relembrar, com Castoriadis (“Reflexões sobre o ‘desenvolvimento’ e a ‘racionalidade’”), q o séc. XIX celebrou o “progresso” apesar de todos os críticos acirrados do capitalismo triunfante. Conforme Karl Polanyi ( “A Grande Transformaç”), esse movimento do “desenvolvimento” como progresso das forças produtivas - e do padrão institucional dos “mercados auto-reguláveis” como motor do alastramento da ficç da mercadoria para a vida social, criando uma “sociedade de mercado” (uma sociedade juridicamente ficcionada segundo a lógica da mercadoria) -, tb conheceu, no próprio séc. XIX, um contra-movimento: o da proteç, ainda q mínima, da substância mesma da vida social: as regulamentações do trabalho e da exploraç de recursos naturais sob pena, já naquele século, de destruiç da base da própria vida da sociedade humana. Apesar desse duplo movimento, o “desenvolvimento” seguiu como slogan e como tema da ideologia oficial e “profissional”, e, aponta Castoriadis, após a Primeira Guerra e a Grande Depressão, e juntamente com os fenômenos (do nazismo e facismo) no interlúdio para uma outra grande guerra, isto é, nos anos 30, “a ‘crise do progresso’” era o tema. No pós-45 predominam as preocupações com a reconstruç; no Ocidente, a reconstruç econômica ultrapassa todas as expectativas. Com a atenuaç da Guerra Fria e da questão colonial, “a chave dos problemas humanos”, segundo “a opinião oficial”, “era o crescimento econômico, q se poderia realizar sem dificuldade graças aos novos métodos de regulaç da demanda, e as taxas de crescimento do PNB por habitante forneciam a resposta para todas as questões” (Castoriadis, p. 136).
No pós-45, o conflito com o bloco oriental seguia ameaçador, mas difundia-se a crença, conforme o último autor, de q se esses países atingissem a maturidade industrial e fossem invadidos pelo consumismo, seus governos iriam conduzi-los a uma “liberalizaç” interna. Seguia tb a fome como realidade cotidiana para parte enorme da populaç do planeta, “e o Terceiro Mundo não apresentava nenhum crescimento econômico, ou então um crescimento demasiado débil e lento” (idem). A soluç seria, então, desenvolve-los, ou faze-los se desenvolver. Daí q a terminologia internacional oficial foi sendo adaptada e os países de Terceiro Mundo, antes denominados como “atrasados”, depois “subdesenvolvidos”, passam a ser nomeados como “menos desenvolvidos” ou “em desenvolvimento”. Nesse contexto ideológico – e é difícil dizer q esteja superado nos dias de hoje -, “desenvolver” o Terceiro Mundo significava: “torna-los capazes de entrar na fase do ‘crescimento auto-sustentado’”.
Tal ideologia do “desenvolvimento” logo conheceu críticas. Para além das críticas “tradicionais da esquerda”(idem), relativas a esse sistema social distribuir desigualmente os “frutos do crescimento”, um pequeno círculo de pensadores e políticos heterodoxos (idem) começou a apontar q tal sistema “se preocupava apenas com o crescimento e promovia apenas o crescimento – um crescimento de tipo determinado, com um conteúdo específico, q acarretava determinadas conseqüências humanas e sociais” (idem). Essas críticas se expandiram para os movimentos estudantis dos anos 60 e tb para o comportamento de certos grupos e indifícuos, q decidiram abandonar a “corrida dos ratos”, buscando para si próprios novas formas de vida comunitária. Começa a ser levantada, com insistência crescente, a questão do “preço” q os SH e as coletividades tinham de “pagar” pelo crescimento. E, nesse quadro, “descobria-se” q esse “preço” envolvia as gerações futuras (algo até então passado em silêncio): o acúmulo maciço e crescente dos danos à biosfera, talvez irreversíveis, “resultante da interaç destrutiva e cumulativa dos efeitos da industrializaç; efeitos desencadeadores de reações ambientais q continuam, para além de um certo ponto, desconhecidas e imprevisíveis”, e q poderiam eventualmente desembocar em uma avalanche catastrófica final, ultrapassando toda possibilidade de “controle”.
As “conseqüências virtuais ou efetivas de um ‘crescimento’ e de uma industrializaç desenfreados começavam a delinear-se, imensas”: “do afundamento de Veneza nas águas até a morte talvez iminente do Mediterrâneo; / eutrofizaç de lagos e rios/ extinç de espécies vivas/ derretimento das calotas/ erosão da Grande Barreira de Coral/ multiplicaç até por mil da acidez pluvial / “crise da energia”/ escassez de matérias primas”... surgem “para lembrar aos homens q não era nem mesmo certo q poderiam continuar por muito tempo a destruir a Terra.”
Nos anos 60 “novos organismos burocráticos foram estabelecidos para cuidar da ‘qualidade de vida’”, pois “parecia haver um problema ambiental”. Segundo Castoriadis, esses organismo resolveram problemas do tipo: encontrar postos ministeriais para políticos q precisavam ser acomodados em cargos sem importância polít. E os economistas, sem questionar seu quadro conceitual, descobriram um campo novo para seus exercícios de cálculo. “A questão ambiental só era discutida do ponto de vista dos ‘custos’ e dos ‘rendimentos’, e do possível impacto das medidas de controle da poluiç sobre as taxas de crescimetno do PNB.” Ao ver de Castoriadis, “a idéia de q o problema, em seu conjuunto, ultrapassava de longe a questão dos ‘custos’ e dos ‘rendimentos’, na prática ja+ chegou à mente dos economistas e políticos”. (138)
Também nesse contexto sugiram reações + “radicais”, q propunham crescimento zero. Ao ver do autor, essas críticas não chegavam a questionar as premissas da ideologia oficial do “desenvolvimento”. Seu raciocínio se detinha no fato de q o crescimento exponencial inevitavelmente colidiria com limites físicos. Assim, não consideravam o fato de q nos países “desenvolvidos”, tudo o q o sistema tinha a oferecer às pessoas era o “crescimento e os gadgets”; e uma interrupç no crescimento seria inconcebível, sob pena de violenta explosão social, a menos q “a organizaç social em seu conjunto, aí incluída a organizaç psíquica dos homens e das mulheres, viesse a sofrer uma radical transformaç”.(139) Além do +, não se considerava devidamente os aspectos internacionais da questão: o fato do desenvolvimento dependente dos países periféricos, e o “efeito demonstraç” exercido pelos países “desenvolvidos”.
Nessa abordagem de Castoriadis, vale destacar a compreensão de q tal concepç de “desenvolvimento” é algo profundamente entranhado na “organizaç social em seu todo”, abrangendo aí os níveis nacional e internacional (140). É uma concepç articulada a outras q “dominam e conformam a vida, a aç e o pensamento do Ocidente há seis séculos, e mediante as quais o Ocidente conquistou o mundo...”(idem). Tal concepç caminha ao lado de outras como “economia” e “racionalidade”, operando como um complexo de idéias e de concepções “q em sua maior parte permanecem não consciente, tanto para os políticos como para os teóricos”. Dessa maneira, segue o autor, não se pergunta o q é o “desenvolvimento”, por q “desenvolvimento”, de q ou em direç a quê. E nessa não consciência, o termo “desenvolvimento” começou a ser empregado como um qualificativo das sociedades ocidentais; ou seja, “progresso”, “crescimento’, “expansão” foram notados como “virtualidades intrínsecas” não pertinentes a todas as sociedades, mas como propriedades específicas das “sociedades ocidentais”: estas é q apresentam, segundo a ideologia do desenvolvimento, esse “valor positivo”. Assim, caberia superar ou eliminar aquilo q em outras sociedades surgiria como “obstáculos ao desenvolvimento”. E esses “obstáculos” foram, durante algum tempo, considerados como meramente econômicos. Ou seja, tratava-se de inserir essas outras sociedades e países no “crescimento” e, a partir daí, o próprio “crescimento” se incumbiria do “desenvolvimento”. Tal ideologia, portanto, supõe uma transformaç global gerada a partir de algo encontrado no Ocidente: a “descoberta” de “o modo de vida apropriado a todas as sociedades humanas”.
Sem pretender reconstituir a argumentaç de Castoriadis, os seis séculos a q ele se refere, isto é, a partir do século XIV, dizem respeito à “imaginária social” q se instala no Ocidente, e q, conforme o autor, tem a ver com a projeç da concepç do Deus infinito, da teologia judaico-cristã, em direç a este mundo. Ou seja, a partir do século XIV, com a expansão da burguesia, com as descobertas, com a razão mecanicista, com a dissoluç da representaç medieval do mundo e da sociedade, enfim, com a dissoluç de representações relativas a um “mundo fechado”, abre-se a representaç de um universo infinito e toma lugar a perspectiva de um “progresso indefinido do conhecimento”, a matematizaç das ciências, etc. (144) e q a Razão deve ser empregada, como condiç necessária e suficiente, para q nos tornemos “senhores e possuidores da Natureza”(Descartes; ver tb o projeto de Bacon). Há, portanto, dois processos conjugados: a emergência e expansão da burguesia e a vitória da idéia de q “o crescimento ilimitado da produç e das forças produtivas é, de fato, o objetivo central da vida humana”. Ou, numa palavra, “de agora em diante, o q conta é o q pode ser contado”. É o casamento – um provável incesto, diz o autor – entre essas duas correntes q dá origem ao mundo moderno. Em suma, a característica notável desse mundo é a idéia de ausência de limites, ou q os limites têm um valor negativo. Ou ainda, o movimento é o de dirigir-se cada vez + para o +: o “+” é o bom (145). Assim o “desenvolvimento” veio a significar, na organizaç e na imaginária social, um crescimento indefinido. E tal significaç traz consigo outros “postulados”(146) q realimentam a mesma imaginária social: o de q a técnica é virtualmente “onipotente; o de q o conhecimento científico cresce assintoticamente; o da “racionalidade” dos mecanismos econômicos; e vários lemas relativos ao “homem e à sociedade estarem “naturalmente” predestinados ao progresso, ao crescimento, etc.” (146)
Tal concepç do ilimitado é o q encontramos em vários pensadores como sendo a hubris da modernidade ocidental. A concepç do desenvolvimento como ausência de limites constrasta fortemente com a concepç de desenvolvimento no pensamento grego. Em Aristóteles, o desenvolvimento é o tornar-se conforme a uma norma final, a uma enteléquia/finalidade: os seres têm limites, e a sua maturaç é a realizaç desses limites. Nesse pensamento existe a norma natural do ser em desenvolvimento. Podemos dizer q, nesse pensamento, a natureza opera como fonte de simbolizaç para o processo de conhecimento. A concepç q veio a se instalar no Ocidente moderno, a hubris do ilimitado, se põe ela mesma como uma espécie de hiper-realidade (diria, talvez, E. Leff), desconectada de referenciais do Real. Surge uma forma de simbolizaç e de racionalidade, q impacta as culturas, q é, no dizer de Leff, deformaç do Real. As culturas já não encontram a natureza como fonte da simbolizaç porque essa hiper realidade do mundo objetivado, do Mundo Objeto, do objeto a crescer indefinidamente, é o q conta como realidade + real, como hiper-realidade.
O AMBIENTE - ECODESENVOLVIMENTO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
A questão ambiental emerge, a partir dos anos 60, a partir de várias manifestações de uma consciência ambiental – tendo um marco particular na Primavera Silenciosa de Rachel Carson -, e se expanjdiu nos anos 70, depois da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (Leff, Saber Ambiental, p. 16).
“Naquele momento é q foram assinalados os limites da racionalidade econômica e os desafios da degradaç ambiental ao projeto civilizatório da modernidade. A escassez , alicerce da teoria e prática econômica, converteu-se numa escassez global q já não se resolve mediante o progresso técnico, pela substituiç de recursos escassos por outros + abundantes ou pelo aproveitamento de espaços não saturados para o depósito de rejeitos gerados pelo crescimento desenfreado da produç”. (idem, 17)
“Na percepç dessa crise ecológica foi sendo configurado um conceito de ambiente como uma nova visão do desenvolvimento humano, q reintegra os valores e potenciais da natureza, as extenalidades sociais [geradas pelo modelo do crescimento ilimitado], os saberes subjugados e a complexidade do mundo negados pela racionalidade mecanicista, simplificadora, unidimensional e fragmentadora q conduziu o processo de modernizaç. O ambiente emerge como um saber reintegrador da diversidade, de novos valores éticos e estéticos e dos potenciais sinergéticos gerados pela articulaç de processos ecológicos, tecnológicos e culturais.” (idem)
Assim,
“a degradaç ambiental se manifesta como sintoma de uma crise de civilizaç, marcada pelo modelo de modernidade regido pelo predomínio do desenvolvimento da razão tecnológica sobre a organizaç da natureza. A QA problematiza as próprias bases da produç; aponta para a desconstruç do paradigma econômico da modernidade e para a construç de futuros possíveis, fundados nos limites das leis da natureza, nos potenciais ecológicos, na produç de sentidos sociais e na criatividade humana.”
Nesse processo de elaboraç de respostas à crise ambiental, ou, processo de reconstruç civilizatório, aparecem, como precursoras do q veio a ser o Desenvolvimento Sustentável, as estratégias do “ecodesenvolvimento”.
A proposta do ecodesenvolvimento surge no contexto da Conferência de Estocolmo (1972) e como parte das iniciativas de criaç e implementaç do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o MA; e coube a Maurice Strong cunhar o termo em 1973 – Freire, 54).
“Através desse conceito buscava-se caracterizar uma idéia-força”q fosse capaz de direcionar, de forma criativa, iniciativas de dinamizaç econômica sensíveis aos fenômenos de degradaç do MA e da marginalizaç social, cultural e polít” (idem).
Ou, conforme Leff (idem, AS, 17): “postulando a necessidade de fundar novos modos de produç e estilos de vida nas condições e potencialidades ecológicas de cada região, assiim como na diversidade étnica e na autoconfiança das populações para a gestão participativa dos recursos.”
A problemática de base do ecodesenvolvimento inclui tb os princípios da solidariedade sincrônica (com as gerações atuais) e diacrônica (as futurs), combinados à tomada de consciência dos limites e da vulnerabilidade da base de recursos naturais, de modo a permitir o resgate da dimensão socioambiental para o tratamento das teses do paradigma da dependência relativas ao enfrentamento das desigualdades sociais nos e sobre os países em desenvolvimento (Freire, 55).
Ou seja, as propostas do ecodesenvolvimento aparecem no contexto em q as teorias da dependência, do intercâmbio desigual e da acumulaç interna do capital orientavam o planejamento do desenvolvimento (Leff, 18). Na avaliaç de Leff, as estratégias propostas sob o ecodesenvolvimento não lograram vencer barreiras da gestão setorializada do desenvolvimento, reverter os processos de planejamento centralizado e penetrar nos domínios do conhecimento estabelecido, pois a resistência à mudança da ordem econômica foi dissonvel o potencial crítico e transformador das práticas do ecodesenvolvimento. Para Leff, o desenvolvimento sustentável surge com o desuso do discurso do ecodesenvolvimento, no contexto do neoliberalismo, uma década depois de Estocolmo.
No relatório Nosso Futuro Comum (Comissão mundial sobre MA e Desenvolvimento), ou Informe Bruntland, o DS foi definido como “um processo q permite satisfazer as necessidades da populaç atual sem comprometer a capacidade de atender as gerações futuras”(Leff, 19). Para esse autor, o discurso da “sustentabilidade” leva a lutar por um crescimento sustentado, sem uma justificaç rigorosa da capacidade do sistema econômico de internalizar as condições ecológicas e sociais (de sustentabilidade, eqüidade, justiça e democracia) desse processo. Para o autor, a ambivalência do discurso da sustentabilidade poderia ser dita da seguinte forma: apresentan-se tanto como desenvolvimento “sustentado”, isto é, a sustentabilidade como condiç do processo econômico (ou, para o crescimento econômico sustentado); ou a sustentabilidade como ruptura com a racionalizaç do capital e com processos de mudança social q não + cabem na chave da mudança social sob a representaç do desenvolvimento como crescimento econômico.
Apesar da evidente pertinência dessa crítica de Leff, isto é, apesar do DS ser antes um discurso e efeito de consciência face à resistência da ordem econômica dominante à mudança social, e de por vezes, conforme Leff, atuar como um discurso de diluiç das contradiçòes entre MA e desenvolvimento, cabe seguir pensando as potencialidades criativas e transformadoras do DS e tentar discernir suas dimensões.
Como apontam Vieira e Leff, há grande convergência entre as propostas do ecodesenvolvimento e do DS. Vieira trabalha as dimensões do ecodesenvolvimento, e seus conceitos correlatos, e entende q as mesmas se aplicam ao DS.
Essas dimensões são:
- A das finalidades do desenvolvimento – q evidentemente conferem destaque às limitações da concepç q orienta a evoluç sociocultural no sentido de um esforço contínuo e virtualmente ilimitado de elevaç das taxas de crescimento econômico.
- A das estratégias de planejamento – q envolvem a desmistificaç da persistência de uma visão tecnocrática-autoritária q não assume de maneira convincente a participaç da sociedade civil organizada
- A dos critérios globais de avaliaç dos conteúdos e da eficácia das práticas de desenvolvimento, q envolve a inadequaç de indicadores extraídos da análise econômica quantitativa, e a dificuldade na geraç de indicadores q considerem os chamados “custos socioambientais” (Vieira, 50)

Os posicionamentos epistemológicos e políticos para lidar com isso podem conhecer diferenças significativas. Em Vieira encontramos uma posiç q, no q se refere à dimensão do planejamento e dos critérios de avaliaç, parece apostar no paradigma sistêmico: a tentativa, de alta densidade teórica como diz o autor, de associar inovações de teorias empíricas e normativa do desenvolvimento ao plano da criaç de tecnologias sociais (organizaç institucional, planejamento estratégico, pedagogia).
Tal posiç enseja lembrar q sua inspiraç quer se alimentar do conceito biológico de sustentabilidade dos ecossistemas: a teoria ecológica oferecendo impulsos à integraç interdisciplinar do conhecimento científico sobre a estrutura e a dinâmica evolutiva dos sistemas socioculturais. Para o autor, a fundamentaç teórico-metodológica desse enfoque só é pensável na chave do paradigma sistêmico.
Por outro lado, poderíamos situar a posiç de Enrique Leff em seus livros + recentes (como Racionalidade Ambiental). Em obras anteriores esse autor tendia a seguir inclusive o paradigma da complexidade de E. Morin. Na referida obra + recente, sua posiç se modificou, a meu ver para uma clareza maior quanto ao q já estava presente em suas reflexões anteriores. A maneira como se reposiciona diante do paradigma da complexidade permite, a meu ver, dizer q Leff tb se distancia do aporte sistêmico. Isto é, Leff passa a considerar q o paradigma da complexidade não escaparia à seduç de apresentar-se como uma racionalidade científica totalizadora – um saber de fundo q estaria sendo buscado como saída para a questão ambiental. Esse tipo de busca reafirmaria, ainda q com ressalvas, uma perspectiva tecnocrática. Leff passa a apostar decididamente no sentido de q o potencial crítico, criativo e transformador do DS, ou melhor, como ele prefere, da “racionalidade ambiental”, só pode se dar como diálogo de saberes e não como tentativa de postular uma unificaç dos saberes, ainda q em perspectiva interdisciplinar, ainda q sob enfoque sistêmico. Certamente o autor não joga fora as contribuições do enfoque sistêmico ou da interdisciplinaridade, mas não as posiciona como a direç para a qual deveriam evoluir as teorias e metodologias no sentido do potencial transformador da questão ambiental.
Freire, por sua vez, tende a combinar o aporte sistêmico a fundamentos normativos q não desconsideram a participaç.


Georgescru Roegen interpreta os limites o crescimento econômico por uma perspectiva biofísica, introduzindo princípios da teoria da entropia, para demonstrar a total impossibilidade de um desenvolvimento exponencial a partir de uma base de recursos escassos. (Gustavo Lima 204)
Herman Daly
- Crescimento sustentável é uma impossibilidade.
- Pois, em termos das suas dimensões físicas, a economia é “um subsistema aberto do ecossistema terrestre”, e este último é “finito, não-crescente e materialmente fechado”.
- Assim, “à medida q o subsistema econômico cresce, ele incorpora uma proporç cada vez maior do ecossistema total e deve alcançar um limite a 100%... Por isso, seu crescimento não é sustentável. O termo crescimento sustentável quando aplicado à economia é um mau oxímoro – contraditório como prosa e não evocativo como poesia.”
- Não se deve confundir as dimensões quantitativas e qualitativas: devem ser mantidas separadas: “Crescer significa "aumentar naturalmente em tamanho pela adiç de material através de assimilaç ou acréscimo". Desenvolver-se significa " expandir ou realizar os potenciais de; trazer gradualmente a um estado + completo, maior ou melhor". Quando algo cresce fica maior. Quando algo se desenvolve torna-se diferente. O ecossistema terrestre desenvolve-se (evolui) mas não cresce. Seu subsistema, a economia, deve finalmente parar de crescer mas pode continuar a se desenvolver.”
- O autor define: “Desenvolvimento sustentável é uma adaptaç cultural feita pela sociedade quando ela se torna consciente da necessidade emergente do crescimento nulo.”
- Pois é exatamente a insustentabilidade do crescimento q dá urgência ao conceito de desenvolvimento sustentável.
- Porém, politicamente pega bastante mal, isto é, é muito difícil admitir a conteç do crescimento, ou, falar em desenvolvimento sem crescimento.
- Mas os dados relativos à finitude do ecossistema terrestre (ou dos ecossistemas) estariam mostrando q a economia já se vale de ¼ do “produto primário líquido global da fotossíntese”.
- A questão importante é aquela posta pela Comissão Brundtland, mas não enfrentada pela mesma comissão: “em q medida nós podemos aliviar a pobreza através do desenvolvimento sem crescimento?”
- A única maneira de enfrenta-la implica em fornecimento de alimentaç, vestuário e habitaç, isto é, implica em bases físicas do desenvolvimento. Não adianta fornecer informações aos pobres. Assim, para o autor, somente o controle populacional e a distribuiç de riqueza podem ser compatíveis com desenvolvimento sem crescimento, com o enfrentamento sério da pobreza.
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (por ...)
Nos anos 1980, surgiu um novo conceito q pretende defender o meio ambiente, ao mesmo tempo em q inscreve o homem no centro das suas preocupações. O termo "desenvolvimento sustentável" teria sido utilizado explicitamente pela primeira vez no Building a sustainable Society, o manifesto do partido ecológico da Grã-Bretanha, escrito por Lester Brown, do Worldwatch Institute, em 1981. Seis anos depois, em 1987, a Comissão mundial sobre o meio ambiente e o desenvolvimento - presidida pelo Primeiro-Ministro da Noruega, Gro Harlem Brundtland - popularizou a idéia em seu relatório Our Common Future (O futuro de todos nós). Mas foi apenas em 1992 q os governos do mundo inteiro oficializaram o conceito de desenvolvimento sustentável, durante a Cúpula da Terra - Eco 92, realizada no Rio de Janeiro (Brasil). Em agosto de 2002, a África do Sul recebe a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável. Por ocasião da maior conferência organizada em nome das Nações Unidas, a comunidade internacional pretende fazer o balanço do estado do Planeta e dos seus habitantes, dez anos depois dos compromissos assumidos no Rio, e definir as polít públ globais para as quais esses compromissos podem ser implementados em escala internacional. Se devemos o conceito de desenvolvimento sustentável em grande parte a Lester Brown, este baseou-se, para construí-lo, nas propostas q Ignacy Sachs e Maurice Strong tinham elaborado, nos anos 1970, para o q eles chamaram na época de "eco-desenvolvimento". Sachs e Strong propunham, assim, uma abordagem voluntarista a fim de realizar simultaneamente desenvolvimento econômico, eqüidade social e prudência ecológica. Nessa perspectiva, a intervenç institucional parecia fundamental, pois ela devia assumir ações destinadas a controlar a utilizaç dos recursos, a empregar técnicas "limpas" de produç, e a privilegiar as necessidades ao invés das demandas nos hábitos de consumo.
Strong presidiu a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Stockholm, 1972), mas a idéia não chegou a firmar-se, especialmente devido à rejeiç pelos países industrializados e seus lobbies econômicos, de um eventual controle de suas atividades. Ao contrário, foi o Clube de Roma q conseguiu se fazer ouvir, particularmente através da publicaç do relatório Os Limites do Crescimento, no qual argumentava q o mundo já tinha alcançado todo o crescimento necessário para proporcionar uma vida confortável e satisfatória aos seres humanos. Ele desaconselhava, assim, q se privilegiasse polit orientadas para o crescimento, o Planeta não tendo capacidade para absorver maiores desenvolvimentos nesse sentido... Mas a Conferência foi finalmente encerrada com um compromisso a favor da preservaç da natureza e da criaç de várias agências nacionais e internacionais - dentre elas o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) - q permitissem atingir esse objetivo.
O conceito de desenvolvimento sustentável foi popularizado e integrado à linguagem das Nações Unidas graças ao Relatório Brundtland, de 1987. Esse Relatório formulava a definiç do conceito + conhecida e ainda largamente aceita atualmente: "um desenvolvimento q responde às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de responder às suas". Ele estabelece tb sete ações estratégicas a serem implementadas a fim de alcançá-lo: (i) aprofundar e melhorar o crescimento; (ii) satisfazer as necessidades essenciais em termos de emprego, de alimentaç, de energia, de água e de salubridade; (iii) manter a taxa demográfica num nível sustentável; (iv) conservar e valorizar os recursos naturais; (v) reorientar a tecnologia para gerenciar os riscos; e (vi) integrar o meio ambiente e a economia aos processos de decisão.
Em 1992, durante a Rio 92 - dirigida por Maurice Strong - esse projeto de desenvolvimento foi finalmente oficializado como cenário e eixo da polít pública global. Nessa ocasião, a comunidade internacional, pela voz do maior número de Chefes de Estado e de Governos já reunido até então, adotou principalmente uma declaraç polít enumerando 21 princípios q estabelecem os direitos e deveres das nações na continuidade do desenvolvimento humano e do bem-estar. Trata-se da Agenda 21, acompanhada de um plano de aç q visa fazer do desenvolvimento um procedimento social, econômica e ecologicamente durável. Esse plano de aç constitui um programa q "reflete um consenso mundial e um compromisso político no nível + elevado da cooperaç em matéria de desenvolvimento e de meio ambiente" (Agenda 21, Preâmbulo, Parágrafo 1,3).
Três dimensões devem ser levadas em conta em toda estratégia de desenvolvimento sustentável. Primeiramente, (1) uma estratégia desse tipo pensa em termos propriamente "humanos": ela escolhe a eqüidade inter-estatal e inter-geracional. (2) Ela supõe tb o reconhecimento de q as capacidades da economia industrial em satisfazer as necessidades humanas são limitadas pela natureza. Para q o desenvolvimento seja durável, é essencial q os recursos disponíveis sejam bem administrados, a fim de q se possa continuar a satisfazer as necessidades a longo prazo. Por este motivo, (3) os esforços de desenvolvimento sustentável implicam na avaliaç dos efeitos das atividades econômicas sobre o meio ambiente, e deve buscar meios de financiamento e de melhoria das técnicas industriais q permitem preservar os recursos naturais.
A chave do sucesso depende tb da aplicaç de três princípios q correspondem a cada uma das dimensões: (i) o princípio de solidariedade entre as populações do mundo e entre gerações presentes e futuras; (ii) o princípio de precauç, q parte da constataç de q a Terra não sendo um laboratório, é obrigada a tomar medidas preventivas ou de abstinência quando os efeitos de uma aç sobre o meio ambiente não são conhecidos; e (iii) o princípio de participaç do conjunto dos atores na tomada de decisões coletivas.
Na Rio 92, a comunidade internacional tb aprovou o princípio das responsabilidades comuns + diferenciadas, em virtude do qual todos os países do mundo são responsáveis pela saúde do Planeta, mas têm papéis diferentes a desempenhar a esse respeito. Os países desenvolvidos, responsáveis pelo modelo dominante de desenvolvimento, devem fazer evoluir seus modos de consumo e de produç, e transferir recursos, tecnologias "limpas" e capitais aos países em desenvolvimento (PED), de modo q estes possam encontrar por si mesmos o caminho para um desenvolvimento sustentável. Os PED, em contrapartida, devem aceitar transformar suas economias e seus modos de produç poluentes, apesar do custo elevado disto.
O conceito de desenvolvimento sustentável introduziu um sentimento de novidade na cena geo-polít e intelectual internacional. De fato, a busca do desenvolvimento era tradicionalmente concebida como um esforço de industrializaç e de mercantilizaç da economia, único modo de permitir às sociedades entrar na modernidade, melhorar as condições de vida dos seus membros, e dar aos seres humanos a possibilidade de controlar seu destino. Por seu lado, o desenvolvimento sustentável integra todas as dimensões da vida social, relacionando-as com o meio ambiente natural no qual elas se inserem. Essa abordagem integrada propõe, além disso, um diálogo intercultural suscetível de reconciliar os diferentes modelos de desenvolvimento, q desse modo se torna uma escolha polít q as sociedades farão democraticamente e em coerência com suas próprias concepções sociais.
Simon Upton observou, no número de agosto de Network 2002, q depois da Rio 92 o desenvolvimento sustentável - tb definido de modo amplo - parece englobar o próprio sentido da vida. De fato, acrescentava ele, a agenda do desenvolvimento sustentável tornou-se tão vasta q se pode perguntar o q poderia ficar de fora dela. Debaixo desse guarda-chuva, vê-se atualmente abordadas questões tão díspares quanto o papel das mulheres na sociedade moderna, o comércio internacional, a água potável, a reduç da dívida externa, a desertificaç e a deflorestaç, a reduç da pobreza ou a defesa dos Direitos Humanos e dos valores democráticos... O catálogo é impressionante e as idéias são generosas - mas isto constitui uma polít?
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PARCERIA AMBIENTALISTA E EMPODERAMENTO DE “POPULAÇÕES TRADICIONAIS” NO VALE DO RIBEIRA - Reflexões em torno de uma perspectiva de desenvolvimento social (alternativo)
Como sugere o título deste trabalho, as reflexões aqui elaboradas têm, por um lado, uma ênfase q poderia ser denominada, na ausência de expressão + feliz, como programática. Ou seja, são reflexões interessadas em diretrizes de projetos de “aç local” q procurem articular processos de empoderamento (local empowerment) de grupos sociais “tradicionais” e a questão da qualificaç dos mesmos em parcerias ambientalistas. No caso, tenho em vista concepções de projetos relativos a “populações tradicionais” (ou “neotradicionais”), dentre estas, em particular – em virtude de dados a respeito de um projeto local com o qual me encontro um pouco + familiarizado –, Comunidades Quilombola, submetidas a restrições ambientalistas por habitarem uma região, o Vale do Ribeira do Iguape, q concentra um dos principais patrimônios do q restou da Mata Atlântica e onde existem várias Unidades de Conservaç Ambiental (UCs).
Por esse lado, e para apresentar de modo + circunscrito o tipo de enfoque e objetivos q regem estas reflexões interessadas em torno dessa articulaç, seria válido ressalvar antes de tudo q não se trata, por exemplo, de examinar + extensivamente as visões e missões de uma possível seleç de projetos – ambientalistas e/ou de empoderamento – empreendidos ou em andamento localmente, e mesmo sua comparaç com outros de outras localidades. (Muito embora uma tal proposiç de pesquisa pudesse ser de real valor para a perspectiva para a qual aponta estas reflexões.) Neste trabalho, essa articulaç é proposta na chave de uma perspectiva específica a respeito de uma determinada dimensão de projetos de “desenvolvimento local”. (A última expressão é tomada em acepç q se pode encontrar no projeto intitulado Reinvenç da Emancipaç Social: Para novos manifestos, de Boaventura de Sousa Santos; em particular nos estudos reunidos, sob sua organizaç, no volume PRODUZIR PARA VIVER – Os caminhos da produç não-capitalista. No mesmo volume, sentidos do “desenvolvimento local” como alternativa de desenvolvimento exprimem-se talvez + diretamente, porque emergem com a sensibilidade fruto da experiência do praticante no “laboratório da aç social”, no estudo de caso de Alberto Melo a respeito da história de vida de uma associaç de “cidadãos” voltada para a “aç local”, em uma região marginalizada de Portugal; sendo esse tipo de aç entendido, conforme formula o mesmo autor, “como forma de resistência à nova onda de colonizaç global” (MELO, 2002).)
A bem dizer, trata-se, aqui, de uma tentativa de enunciar uma perspectiva de uma enteléquia de desenvolvimento social. Esta tentativa se atém ao contexto de formas de associaç e finalidades do “desenvolvimento local”; e, para tanto, tem como referencial empírico uma avaliaç quanto à exemplaridade de obstáculos e potenciais da experiência de um determinado projeto no Vale do Ribeira. Naturalmente a idéia de enteléquia do desenvolvimento é de linhagem metafísica; certamente deve ser fundamentada, e justificada quanto ao seu valor conceitual e operacional, na enunciaç dessa perspectiva. Por ora, bastaria relembrar q ela carrega uma certa conotaç de limite (e mesmo de lei); o q é no mínimo saudável em contraposiç à espécie de sociedade, e correspondente ambiente, propulsionados pela hubris do crescimento econômico ilimitado segundo a “racionalidade” econômica do “desenvolvimento” (cf. CASTORIADIS) do sistema (ou “padrão institucional”) da “sociedade de mercado” (POLANYI, 1980:84). A enteléquia refere as formas e/ou finalidades q orientam as transformações ou criações dos seres – no caso, seres (ações, associações, enfim, entidades) da esfera do social. Uma vez q termos como esses (social, sociedade, e, + obviamente, desenvolvimento, e outros) são empregados correntemente, via de regra em verdadeiro quiprocó de deslizamentos de sentido, não sendo neutros em nenhum caso – nem mesmo o são as palavras social e sociedade em seus usos habituais nas ciências sociais –, neste texto é mantida uma notaç distintiva (grafando em itálico) sempre q estiver em significaç essa perspectiva. Que, em tempo, não é uma perspectiva q estamos criando (pois ela está presente em autores como Max Neef, entre outros). A tentativa é apenas de enunciá-la ou traduzí-la, de um certo modo, em cortes conceituais talvez + próprios às ciências humanas e sociais; além da preocupaç em apontá-la como de valor operacional para a concepç de projetos-suporte a processos de empoderamento em articulaç com qualificaç ambientalista, no contexto mencionado.
Em outras palavras, a ênfase programática deste trabalho diz respeito tanto a pesquisas científicas quanto a vertentes de aç social, uma vez q aqueles projetos-suporte requerem com freqüência a combinaç de ambas. Entretanto, apesar dessa ênfase, e do caráter normativo no qual por vezes inevitavelmente incide, não se contentando, portanto, dentro do plano em q se movem enfoques de pesquisa com propósitos + estritamente analíticos, não é o caso de escapulir ao seu devido embasamento no plano reflexivo analítico-conceitual. Entre as noções q devem ser submetidas à crítica estão, ao menos:
- A noç de “tradicionalidade”, relativa à produç de identificações de “populações tradicionais” (ou “neotradicionais”) em áreas de conservaç, para o esclarecimento de como poderíamos seguir retendo algo do “tradicional” no debate (epistemológico político) acerca de potencialidades em parcerias ambientalistas. (A propósito: toda vez em q um termo aparece entre aspas e sem referência de autoria, está sendo indicado q o mesmo se encontra em observaç crítica; por conseguinte, q as aspas deverão ser justificadas.)
- A noç de ambiente, para a explicitaç de acepç q seria + adequada e operativa inclusive em termos antropológicos.
Aí, no devido passo da necessidade desse embasamento, já se situa um outro lado deste texto, q pode ser distinguido mas não se dissocia da enunciaç referida. Isto porque estas reflexões são suscitadas, a princípio, por dois motivos de naturezas diferentes. Um deles é o debate, configurado na literatura recente em ciências sociais, a respeito de linhas de pesquisa e de diretrizes para polit relativas à presença humana em áreas de conservaç, o q passa por conflitos. O outro é o referencial empírico, já aludido, resultante de uma avaliaç da experiência de um projeto levado localmente: o projeto de introduç de uma nova técnica, desenvolvida na Universidade, de artesanato com fibra de bananeira, em certas Comunidades Quilombola do Vale. Esse projeto surgiu em 1994 como desdobramento de um outro, o “Projeto de Aproveitamento de Resíduos da Agroindústria da Banana no Vale do Ribeira/SP” (resíduos abundantes no Vale, o maior produtor estadual de banana); este último foi firmado em 1991, a partir de solicitaç de um órgão público da região à ESALQ/USP, contando com financiamentos da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico/SP.
Tendo por objetivo ou finalidade enunciar aquela perspectiva, e tendo q passar, dentre os objetivos corolários a essa finalidade, pelo exame crítico de pelo menos as duas noções referidas, este texto se encontra estruturado em quatro movimentos. No primeiro tópico são reconstituídos elementos centrais do debate mencionado acima, tomando como referencial principal resultados de pesquisa, acerca da implantaç de UCs no Vale do Ribeira, publicados por Lúcia Ferreira; pois, entre várias contribuições, esse debate tem implicações incisivas no mínimo para reflexões menos ingênuas, presas de famas reificadoras da “tradicionalidade”. Partindo daí, em continuidade e em interpelaç a esse referencial mas realizando um outro movimento, o tópico II expõe argumentos para o discernimento de critérios relativos a como poderíamos seguir, ainda assim, mesmo com toda fama enredando o termo, mas de preferência melhor avisados quanto a colonizações advindas de representações socialmente construídas, seguir levando adiante, sob certas condições, algo do “tradicional” – ou, prioritariamente, segundo nossa ênfase quanto a projetos-suporte ao empoderamento de “comunidades tradicionais”. Os critérios propostos tb já implicam em justificativa de opç conceitual quanto à noç de ambiente. No terceiro tópico, a exposiç se volta para um resumo de uma avaliaç do Projeto Banana-Artesanato, visando a explorar algumas exemplaridades de certas dificuldades e possibilidades configuradas atualmente nessa experiência, de maneira articulada com os critérios distinguidos no tópico anterior, bem como na intenç de fornecer certos elementos + empíricos para a imaginaç social necessária para uma compreensão + viva da “aç local” na perspectiva em tentativa de enunciaç. Mas é somente no tópico IV q a última é + diretamente elaborada, reunindo aqueles critérios e exemplaridades no sentido da imaginaç social solicitada pela perspectiva do desenvolvimento social (alternativo).
I – Colonizaç, Reinvenç da Tradiç e Organizaç
O debate referente a conflitos relativos à presença humana em áreas de conservaç encontra-se claramente equacionado em artigo de Lúcia da Costa Ferreira: Dimensões Humanas da Biodiversidade: Mudanças sociais e conflitos em torno de áreas protegidas no Vale do Ribeira/SP. Nesse seu trabalho, com o objetivo de discernir “os marcos teóricos e as linhas de pesquisa q servem de substrato para a aç político-institucional voltada ao sucesso da conservaç da biodiversidade no Brasil” (FERREIRA, 2004:2), a autora caracteriza um quadro configurado pela identificaç de – e, poderíamos dizer, pela atribuiç de identidades epistemológico-polit – a duas grandes linhas de pesquisas, com divergências significativas entre si, a respeito dos “aspectos político-institucionais” quanto a essa presença “em áreas protegidas”. A saber: “aquelas focalizadas no papel de grupos sociais pré-modernos no manejo sustentável de recursos naturais em áreas de interesse de conservaç”; e aquelas q constróem a problemática em marcos teórico-metodológicos postos em termos de “mudança social e conflitos em áreas protegidas” (cf. idem, p. 5). Identificando-se na última direç, “q investe no poder explicativo da teoria geral dos conflitos” (idem, p.7), o mesmo artigo situa, entre as divergências + notáveis, uma crítica aguda à construç q entenderia q os “grupos sociais apartados da modernizaç são essencialmente conservacionistas e aliados naturais na manutenç da biodiversidade” (idem, p. 5). Ou seja, justamente àquela postura q aponta para o local empowerment (e q tem em Antonio C. Diegues um expoente “paradigmático”, no dizer da autora) das “populações tradicionais” q vivem no interior ou no entorno das UCs.
O presente texto encontra nas sínteses importantes expostas nesse trabalho de Lúcia Ferreira um referencial básico de diálogo. (Por isso mesmo temos q nos alongar um pouco + ao citá-lo.) Porém, a intenç não é a de propor outra via de análise quanto às duas grandes linhas por ela discernidas; inclusive porque não somente o enfoque é outro, mas tb o âmbito em ênfase é diferente e se restringiria, prioritariamente, talvez, às “arenas” de atores e aç em torno de conflitos, interesses, pactos, q Ferreira designa como “arenas locais” (em distinç face a outras “arenas de disputa”, a “nacional” e a “regional”, incluindo-se as “especificamente ambientalistas”; cf. idem, p. 12). Tal referencial de diálogo se faz presente e necessária porque a abordagem nestas reflexões, ao seguir falando em empoderamento e qualificaç ambientalista, apesar de não pretender caminhar no sentido de uma concepç de identificaç cultural essencialista das “populações tradicionais”, já se implicou, de certa maneira, nos resultados da pesquisa da autora. Por isso mesmo deve dar satisfações conceituais a respeito de q modo poderíamos seguir construindo o empoderamento do “tradicional” nessa qualificaç.
Entre as conclusões de Ferreira, está a de q as pesquisas q desenvolve, no NEPAM, juntamente com outros pesquisadores, “têm permitido demonstrar q .... o sucesso das polit de conservaç da biodiversidade depende muito + da aç coletiva nos sub-sistemas social e político dos atores em confronto, do q das características culturais dos usuários diretos e indiretos dos recursos a serem preservados” (cf. idem, p. 19). E q a “tradicionalidade” é antes uma “reinvenç da tradiç”: uma “gramática” q, a determinada altura da evoluç dos conflitos no Vale, foi “introduzida por técnicos e gestores das agências governamentais e de ONGs atuantes na região” (idem, p. 18). Para acompanharmos adequadamente os argumentos q sustentam essa tese, é preciso trazer um pouco + a sua linha de análise na construç da evoluç dos embates entre moradores do interior e do entorno das UCs e as formas e agentes de implementaç das mesmas. Para tanto, é útil sumariar brevemente as três etapas mapeadas na sua reconstituiç da história desse processo de institucionalizaç das áreas protegidas no Vale.
Uma primeira etapa é recortada entre meados dos anos 1980 e início dos 90: mostra-se como um período de imposiç ou ilegitimidade do processo de implantaç das UCs no Brasil e na região. Então, os moradores do Vale, por “falta de informações sobre a nova situaç legal de suas antigas posses e sobre as novas normas restritivas ao uso dos recursos”, em muitos casos “abandonaram as áreas, ou recuaram a uma situaç de clandestinidade frente a um contexto renovado de suspensão de direitos” (idem, p.9). Já anteriormente “marginalizados das polit públ e do mercado”, passaram, naquele período, a experimentar no cotidiano “a imposiç de uma situaç de total suspensão de direitos” (idem). Como resultantes desse período ficaram as marcas de “revolta e perplexidade” e a “forte desconfiança nos agentes institucionais q passaram a trabalhar cotidianamente na região”(idem). (A propósito, o Vale do Ribeira é conhecido, como se costuma dizer, pelo seu riquíssimo “patrimônio ambiental”, e tb – + uma vez, como é de hábito dizer –, pelo “patrimônio cultural”: por sua não menos ainda eloqüente diversidade étnico-cultural. Ali habitam grupos indígenas, caiçaras, ribeirinhos e outros grupos rurais, muitas vezes guardando padrões essenciais da cultura caipira; e o maior número de Comunidades Quilombola já identificadas em uma região. O Vale é ainda bastante conhecido como a região de menores “índices de desenvolvimento” do Estado de S. Paulo.)
Uma segunda etapa, entre o início e o final da década de 1990, é caracterizada sobretudo pela “aç das instituições governamentais” no sentido da “sua intensa mobilizaç para...” produzir pactos para solucionar conflitos de âmbito local (FERREIRA, idem, p. 10). O q teria sido “possível graças a importantes investimentos internacionais para incentivar a participaç popular nas decisões sobre as UCs implantadas” (idem). Nesse período, houve avanços na “organizaç social e polít” de grupos de moradores, bem como “em suas condições de representatividade”. Entretanto, ressalva a autora, isso se deu em condições em q tais avanços organizacionais eram ainda interpretados “de modo tutelar” pelos agentes institucionais e tb pela ONGs; e a esse tipo de interpretaç muitas vezes os moradores responderam de maneira a apenas conferir “legitimidade a seus porta-vozes, geralmente alheios ao grupo social ao qual pertencem” (idem). A terceira etapa – entre o final da década de 90 e início dos anos 2000 –, teve como traço + característico o fato de q as questões com maior dificuldade para a construç de pactos a respeito, “foram para a arena, pois começaram a ser elaborados com grande atraso os planos de manejos para as UCs regionais, cuja importância é a definiç das regras de uso dos recursos nessas áreas” (idem). Então, “entre os resultados + significativos” desse terceiro período, houve tanto o fortalecimento das organizações de moradores, em um processo q guarda, no mesmo movimento, traços de “colonizaç” e de “aprendizado social” (idem, p. 11); mas, quanto aos resultados dessa terceira etapa voltaremos logo adiante.
Nesse período + recente ocorreram modificações de “todos os atores” envolvidos, pois as posições “conservacionistas”, q abraçam certas compatibilizações com a presença humana, ganharam força frente a posições “preservacionistas”, tendentes a polit de exclusão dessa presença, anteriormente prevalecentes (nas arenas em níveis diversos). Então, com essas modificações, a “tradicionalidade” foi sendo introduzida, nas atuações locais, “através do diálogo entre todos os atores”, como “critério para sustentar o direito social à permanência desses grupos sociais em áreas protegidas” (idem). Desse modo, essa “reinvenç da tradicionalidade” se combina a “uma dinâmica social q já vinha se introduzindo na região há muito tempo” (idem, p. 17).
Caberia relembrar q essa dinâmica de mudança social q já vinha se introduzindo anteriormente às restrições ambientalistas, deriva da intensificaç da expansão dos nexos mercantis e contratuais da sociedade de mercado por sobre os territórios de “comunidades tradicionais”; produzindo conflitos específicos, passíveis de serem ditos inclusive (mas não apenas) como embates entre temporalidades culturais, em adiç aos (e em ressignificaç dos) conflitos costumeiros, em imperativo de subalternizaç dos padrões de comunidade. A acepç de padrões da comunidade (o pré-moderno) tem uma formulaç em Polanyi q nos será útil: a de padrões de relações costumeiras, por ele conceituadas como “formas sociais orgânicas”, ja+ purificáveis como estritamente econômicas, uma vez q trazem a dimensão econômica da produç material da existência de um grupo social de modo “embutido” (embedded) nas “relações sociais de um modo geral” (cf. POLANYI, op.cit., cap. 4). Formas ou padrões q são contrapostos histórica e conceitualmente, pelo mesmo autor, ao caráter (desenraizador, universalizante) das relações contratuais implicadas nos termos “sociedade e sistemas econômicos” (q podem ter, ambos, caráter sistêmico, se usados indiscriminadamente; mas q não teriam, por conseguinte, o caráter de organicidade se referidos àquelas “formas orgânicas”); e, o q + nos interessa, contrapostos historicamente ao “padrão institucional da sociedade de mercado” (cf. idem). Essa dinâmica de mudança está em curso similar, há décadas, em muitos outros bolsões de “tradicionalidade” do país, promovendo o q, guardando as proporções, e as particularidades regionais de época e/ou de fatores de atraç e impulsionadores, podemos adequadamente chamar, com E. Woortmann, de “a grande transformaç em âmbito local” (cf. WOORTMANN, , citando Polanyi). No +, via de regra a transformaç é dirigida pela conversão, diria D. Worster tb com apoio em Polanyi, da “natureza” em “terra” (valor de troca) e da “terra” em fator de produç (de valores de troca mercantil). Não sendo menos recorrente a eliminaç, por grilagem e outros meios dos conflitos fundiários, da apropriaç de territórios sob posse em uso comum pelas unidades domésticas, em redes de sociabilidade e solidariedade de parentela e vizinhança; apropriaç constitutiva das possibilidades de reproduç do modo de vida “camponês” (cf. SIGAUD, 1979) e/ou da pequena agricultura familiar “tradicional”. Essas transformações exercem inevitavelmente pressões de êxodo e a modernizaç colonizadora da temporalidade sócio-cultural em expansão por sobre as formas de organizaç social, os vínculos sociais em geral e formas de identificações culturais. Colonizaç q aparece com feições próprias, nas regiões assim implicadas, na combinaç dessa dinâmica q já vinha vindo com o processo recente de implantaç das áreas de proteç ambiental.
No Vale do Ribeira, a dinâmica de mudança dos “padrões de produç material” desses grupos, ou, nos “padrões nas relações de trabalho e tb culturais locais” (FERREIRA, op.cit., p.18), vinha sendo gerada pela conjunç de vários fatores: “o turismo de especialistas” em espeleologia, “em busca das cavernas do Petar”; “o turismo de baixo e médio padrão”, como nos casos da “Ilha Comprida e na Juréia, sendo q nessas últimas somam-se a especulaç imobiliária e conflitos fundiários, provocados pela disseminaç do turismo de segunda residência” (na Ilha Comprida) e “pelos projetos das usinas ou do condomínio de alta renda na Juréia” (idem, p.17). Esses fatores levaram à substituiç, total ou parcial, por parte de um ou + membros da maioria das famílias, da “atividade principal na roça ou no mar pelo trabalho assalariado ou prestaç de serviços ao turismo, à Nuclebrás, Camargo Correia ou à SUDELPA” (idem, p. 18). Assim, o primeiro período distinguido, o da implantaç das restrições ao uso de recursos naturais, “recolocou e tornou explícita uma ruptura q vinha sendo produzida nas relações sociais desses grupos: a passagem de uma condiç de trabalhadores da terra ou do mar, autônomos ou assalariados, para a condiç de moradores de áreas protegidas” (idem, p. 18, grifos da autora). Ou seja, as restrições ambientalistas, com suas formas próprias de controle e sujeiç ocorridas (e em andamento), se combinaram às pressões sobre os moradores não apenas no sentido de terem q decidir em “permanecer ou sair de suas localidades”, mas porque, no contexto dessa injunç, “esta oposiç original se desdobrava” (e se desdobra) em “atividades permitidas ou proibidas pelos agentes...” – “cuja autoridade” se impôs sem ter sido “construída” (idem, grifos da autora). Nessa situaç, “desenvolver o mesmo padrão de produç material passou a representar a opç pela clandestinidade do trabalho” – como no caso já clássico do extrativismo do palmito juçara, entre várias outras práticas –, “ou o abandono da área agora sob proteç legal” (idem).
Se, por um aspecto, “muitas vezes ... a instituiç de uma UC apresentou-se aos moradores ... como o único instrumento político q garantiu a sua permanência nas áreas, tendo em vista os conflitos fundiários enfrentados com grandes corporações do setor imobiliário, por exemplo” (idem, p. 20); por outro aspecto, a implementaç das mesmas, ocorrida em um “padrão de aç polít de conservaç” (nos âmbitos federal e estadual) não referendado em sua legitimidade perante os moradores locais (cf. idem, p. 7), não apenas atuou como fator de estímulo a práticas clandestinas (cf. ainda ARRUDA, 1999:84), como tb lançou os moradores em conflitos, surgidos na “arena pública”, com “características predominantemente assimétricas” (FERREIRA, idem, p. 10), resultando em “primeiro lugar em uma colonizaç ... sem precedentes de sujeitos sociais antes excluídos da vida social moderna, provocada pela interaç com as arenas próprias dos agentes institucionais e de ONGs atuantes na região” (idem, p. 11). Entretanto, em segundo lugar, “mas em um mesmo movimento”, ao lado dessa colonizaç tb houve a mencionada modificaç de “todos os atores” envolvidos no processo, “independentemente de seus recursos de poder e influência”, o q a autora entende como situaç q pode ser caracterizada como de “aprendizado social” (idem). Dentre outros “resultados + significativos desse período” – o intermediário, em q passaram a prevalecer as posturas conservacionistas, incentivadoras da participaç dos moradores locais –, está a produç de “um tipo de conhecimento híbrido entre conhecimento local e perito ... em toda a região” (idem). O + relevante nessa caracterizaç é q situaç seria propriamente a de uma “tensão permanente entre colonizaç e aprendizado” (envolvendo moradores locais e todos os participantes do período anterior, no qual havia menor aceitaç de teses conservacionistas; cf. idem). E, além disso, a situaç “criou um padrão de destradicionalizaç predominante na região” (idem). Em exemplificaç nesse último sentido, as pesquisas da autora apontam q não se observa, nas “arenas locais”, q as “clivagens” entre os moradores sejam orientadas “através da oposiç entre ... (os) grupos sociais q persistem em reproduzir seus próprios modos de vida e seus valores, como um modo de resistência inerente à mudança, e ... (os) grupos vindos de fora, migrantes principalmente do Paraná e de outras cidades do próprio vale” (idem).
Assim teria sido reinventada a “tradiç” na história recentíssima do Vale do Ribeira. A reinvenç funciona como proposiç discursiva – ou “gramática” – em meio à (ou ela mesma uma expressão da) hibridaç fruto da colonizaç e do “aprendizado social”, nas condições do processo resumido acima. Portanto, a “tradicionalidade” se põe, nesse funcionamento ou enredamento – “ordens de relações de natureza polít e sub-polít em tensão permanente” (idem, p. 10) –, antes de tudo como representaç social, isto é, construç de representações sociais enredadas em estratégias (e/ou quase estratégias) em um contexto e processo em curso. A conotaç de “representaç” não é, aí, por referência ao “tradicional”, evidentemente, a de representante ou porta-voz escolhido para representar interesses de grupos específicos (portadores ou não de identidades culturais) nos movimentos nas arenas. Mesmo porque as pesquisas de Ferreira tb mostram q muitas vezes as lideranças, q falam em nome de grupos “tradicionais”, não podem de modo algum ser identificadas por meio de critérios de “tradicionalidade”, entre outros elementos q não verificam a representatividade polít a partir de correspondências substantivas com identidades culturais “tradicionais”. A conotaç é a de representaç socialmente construída: enquadramentos – encentes mentales, tal como na noç de cultura ainda muito pregnante em Antropologia – q pousam sobre alguma instância ou sujeitos, q, assim sendo, passam a falar ou, antes e tanto +, passam a ser falados e a se fazer falar desse lugar de discurso – construído de “modo político e sub-político”, conforme o caso; quer dizer, na dependência de serem atores, quase-atores ou nem-atores, com suas causas, quase-causas ou mesmo com suas nem-causas, uma vez q o “aprendizado social” seria “sub-político”, além de (ou tb por isso) colonizador.
Mas, como foi dito, no período + recente houve determinados ganhos organizacionais dos moradores, apesar dessa tensão permanente com a colonizaç. Então, retomando a caracterizaç da autora quanto aos “resultados + significativos”, nessa etapa a partir do final dos anos 1990, temos q: “... os moradores compraram a idéia da mobilizaç autônoma; ...produziram suas próprias lideranças; ...investiram na organizaç polít de vários formatos, desde pequenas ONGs, associações civis, até organizações sindicais; ...criaram condições de representatividade para o próprio grupo nas diversas situações de aç; ...buscaram a participaç direta em pactos e projetos, quando não a elaborar seus próprios projetos; ... as lideranças produzidas respondem a uma lógica de aç definida por opções racionalmente orientadas no jogo político com outros atores, como ONGs e representantes governamentais e, ... produziu-se o [mencionado] conhecimento híbrido entre conhecimento local e perito ... predominante em toda a região” (idem, p. 11).
Apesar de toda “reinvenç da tradiç”, para projetos tendo em vista empoderamento de grupos “tradicionais” de moradores, na perspectiva q definiremos sob o nome de desenvolvimento (do) social (alternativo) – q contempla capacitações quanto a dimensões organizacionais, mas não se resumindo a elas –, se não é demasiadamente óbvio destacá-lo, esse quadro posiciona q processos de suporte teriam q lidar, inevitavelmente, em direções, digamos, de descolonizaç. Ou seja, essas relações de ordens “polít e sub-polit”, produzidas em conflitos de natureza assimétrica, já indicam, obviamente, entre objetivos e metas de empoderamento de grupos de moradores, para a direç de concepções em tentativas de minimizaç da assimetria. Deve ser possível identificar condições ou critérios para tanto, no q se refere a concepções quanto a esses projetos-suporte.
Se a história recente da implantaç das UCs tb colaborou para produzir, como parecer ser possível dizer seguindo a demonstraç da autora, a impossibilidade de discernimento substantivo dos grupos “tradicionais”, isto é, o tipo de discernimento próprio a classificações em uma lógica identitária – q não encontra correspondência empírica sequer entre as novas “clivagens” entre os moradores, surgidas nas resistências por direitos de permanência e a usos de “recursos naturais”, e tampouco na tipificaç de suas lideranças –, está dado, como inevitabilidade e obviedade, q a empoderaç tem q passar em direç de (um certo sentido de) associaç entre, por um lado, essas formas colonizadoras e esse “aprendizado social”, e, por outro, as formas de sociabilidade, de solidariedade, de organizaç social (e mesmo de organicidade), q fazem parte de bagagens de (pelo menos certos) grupos locais – q, mesmo sob as reificações das representações de “reinvenç”, podem ser distinguidas. Pois, dizer q as segundas fazem parte de bagagens sócio-culturais não é o mesmo q dizer q as mesmas permitiriam separar substancialidades atinentes às “tradicionalidades” como essencialmente conservacionistas da biodiversidade, ou, separáveis como identidades empiricamente (objetivamente) delimitadas a grupos. A história se encarregou de gerar localmente uma situaç de complexidade q não + permite a simplificaç de uma tal lógica classificatório-identitária e sua crença de separabilidade. (Melhor, essa história se encarregou, como tem o mérito de mostrar o modo como é construída em Ferreira, de retomar e configurar ainda + nitidamente essa inseparabilidade, porque é sempre questionável essa possibilidade identitária substantivada, quanto a “populações tradicionais” ou “neotradicionais”, tb para dinâmicas relacionais anteriores às instaladas com a legislaç ambientalista.) Todavia, distinguir não é o mesmo q separar. E, como diz o filósofo inglês O. Barfield, a confusão entre distinç e separaç é um dos “ídolos dos estudos” + recorrentes (cf. BARFIELD, 1988).
Não é o caso de atribuir, de modo identitário, propriedades intrinsecamente ambientalistas (conservacionistas) a esses grupos. Mesmo q eles não sejam os responsáveis pela degradaç dos ecossistemas. Mesmo q estejam sofrendo pressões ou cargas de co-responsabilizaç para diminuir a destruiç ou a insustentabilidade – da diversidade da vida (não-humana e humana) – inerente ao tipo de ambiente criado por um sistema perante o qual encontram-se em posiç marginalizada ou em exclusão. (E, em certas situações, pressionados até por inaniç, em repetiç dos ciclos colonizadores tão bem descritos por Polanyi.) Essas atribuições, advindas dos movimentos sociais, produziram colonizações do debate acadêmico, como faz constar Ferreira em suas conclusões: “acabaram por ideologizar” esse debate, “diminuindo o impacto científico de pesquisas q de fato investigam as características do uso de recursos naturais por populações q habitam áreas biogeográficas caracterizadas pela alta biodiversidade, ou os conflitos em torno desses usos” (FERREIRA, op.cit., p.20). Dentre essas questões de pesquisa, portanto, aquelas relativas por exemplo à sustentabilidade ou à “resiliência” (cf. BEGOSSI, 2001) de formas de manejo de ecossistemas por parte das “populações tradicionais” e/ou “neotradicionais”.
Também não é, entretanto, o caso de dizer, quanto a esses grupos, q não podem ser distinguidas propriedades latentes ou manifestas desse tipo, lado a lado com outras divergentes ou de modo algum qualificáveis como conservacionistas. Analogamente ao cansaço q Latour parece declarar em face de todo o criticismo, continuamente reiterado a respeito dos “brancos”, “ocidentais”, “modernos”, como se “nós” não pudéssemos ser outra coisa do q isso (cf. LATOUR, 2004), como se estivéssemos presos a uma necessidade de cultuar a nossa separaç de uma natureza objetiva (naturalista) e de todas as outras formas de cultura, em movimento ao mesmo tempo de auto-puniç e de manutenç dessa auto-imagem – pois há, certamente, vantagens nisso, entre elas a de continuar construindo as (representações “purificadoras”) de um mundo objetivo sobre o qual se depositam as variações culturais, q é a soluç “do mononaturalismo e sua conseqüência desastrosa, o multiculturalismo”, como diz o autor (idem, p.220) –, seria sim o caso, tb com relaç às chamadas “populações tradicionais”, de cansarmo-nos das separações e “purificações” supostamente de bases empíricas. Isso, tanto face à dinâmica q vinha vindo antes das UCs, quanto àquela q veio com o padrão de aç de implantaç destas, quanto a outras dinâmicas e coletivos q as incluem em suas inércias sistêmicas, ou, quem sabe, “coletivos” aos quais poderiam se constituir por “associaç” – aqui em acepç específica proposta pelo próprio Latour para o termo “social” (cf. idem, p.72) –, tal como “mundos particulares” em contínua “associaç” ao “mundo”, em “composiç progressiva de um mundo comum” (idem, p. 107). Cansaço de separações, mas seguindo adiante mantendo as distinções.
Em outras palavras, e formulando de modo + restrito, se práticas e formas sócio-culturais “tradicionais” não devem ser separadas das representações em “reinvenç da tradiç”, porque estas últimas configuraram uma dimensão inextricável da dinâmica social em curso, no Vale e alhures, mesmo assim podem ser distinguidas. Para tanto, para a sua distinç sem separá-las dessa dinâmica, será necessário construí-las segundo critérios em chave diversa do funcionamento classificatório da lógica identitária. Esses critérios dizem respeito a formas de associaç. (Aqui, indicando a acepç da perspectiva em enunciaç, q não necessariamente é a mesma coisa q a proposta do “social” como “associaç” da “ecologia polít” em Latour. Embora possam existir pontos de aproximaç de visão, não é objetivo das presentes reflexões a intenç de mostrá-los.) Melhor dizendo, uma vez q o termo tb é viciado – incidindo rotineiramente, e “nos estudos”, em usos habituais (a rigor, “hábitos mentais”, cf. BARFIELD, op.cit.) q referem relações empíricas objetivas, transcendentes ao modo de pensar q as pensa, assim, supostamente neutras (e evidentemente não o são) –, é preferível indicar como novas formas de associaç, q demandam um certo tipo de desenvolvimento consciente, ou, de consciência e organizaç social, no movimento do associar (a ser empoderado se houver desejo e potência). E, quanto àqueles critérios e condições e quanto a essa perspectiva, são tratados nos tópicos à frente.
II - Critérios do Social, Habitaç e Ambiente
Para propósitos iniciais quanto ao q vem a ser esses critérios, caberia ressaltar q a elaboraç de Lúcia Ferreira a respeito da “reinvenç da tradiç”, no Vale do Ribeira, seria efetiva e apropriadamente o q se pode chamar de uma “reinvenç da tradiç”, guardando fidelidade à conotaç da expressão celebrizada por E. Hobsbawm. Apropriada justamente em virtude de sua natureza de representações socialmente construídas, inventadas ou reinventadas em um contexto q envolve vários tipos e instâncias de interesse. Entretanto, será necessário deixar a chave de teorias pautadas pela noç de representações socialmente construídas, pois elas de fato não superam a lógica classificatória e identitária, bem como a soluç dualista do monoculturalismo e sua conseqüência “desastrosa”, o multiculturalismo. A noç tem evidentemente seu âmbito de pertinência, como ocorre na abordagem q a articula ao poder explicativo da teoria dos conflitos quanto à mudança social. Porém, talvez paradoxalmente, elas vazam essa lógica e dualismo. Além disso, ou possivelmente por isso mesmo, a dicotomia aparece inclusive sob a forma de um raciocínio por exclusão, do tipo “ou-ou”: ou se vê assim, ou se vê assado, como diz o ditado; e teremos, como já insinuado, q ver o “tradicional” em raciocínio de tipo “e-e”. Muito embora isso não seja suficiente para a questão de como poderíamos seguir retendo algo do “tradicional”.
Nesse último sentido, é necessário mas não suficiente abraçar o raciocínio não-identitário, q convive com a ambigüidade do “e-e”. Temos q explicitar os critérios sociais – participantes, tb eles, da acepç de associaç – q dizem respeito ao embedded (embutimento) e ao embodied (cuja traduç + aproximada seria provavelmente como “encorporado”). O primeiro refere o âmbito da organizaç social de atividades de produç material da existência, + comumente conhecidas como atividades econômicas; seu principal inspirador é Karl Polanyi (op.cit.). Esse âmbito da organizaç social dessas atividades compreende as formas de sociabilidade e de solidariedade q articulam as mesmas atividades. O segundo critério refere o âmbito das “tecnologias” e das “técnicas” – cujas concepções não são intercambiáveis –, por conseguinte, passa por saberes de diferentes cepas e temporalidades culturais, e ainda implica a noç de “habitaç”. Seu principal inspirador, de quem tomamos as acepções dessas três últimas noções (tecnologia, técnica e habitaç), é o antropólogo Tim Ingold, em seu livro THE PERCEPTION OF ENVIRONMENT – Essays on livelihood, dwelling and skill. Ingold – q, como vê Otávio Velho, é um dos principais enunciadores atuais, senão o principal, de um “paradigma ecológico em Antropologia” cuja linhagem vem de Gregory Bateson (cf. VELHO, ) – tb nos é essencial para a acepç de ambiente, entre outras noções fundamentais para nossos propósitos. Os dois critérios devem permitir justificar como seguimos adiante com o “tradicional”, e, no mesmo movimento, já firmando a noç de ambiente em mutualidade interativa de constituiç com o “tradicional” a ser empoderado.
Reafirmando, são critérios não para a identificaç de existências empíricas anteriores à associaç; muito embora possam ser identificadas, de maneira não purificável como identidade sócio-cultural reificada, características empíricas (de grupos) em favorecimento a ou em consonância com esses critérios (ao lado de outras não consonantes). Em lugar disso, são critérios para concepções de associaç – movimento, ato, aç, relaç em ato se empreendida –, em certa perspectiva para o empoderamento do “tradicional” e seu correspondente ambiente.
Como um gancho q nos permite levar aos fios do embodied e do embedded, podemos tomar como ponto de partida a utilidade de esclarecer algo a respeito do vimos dizendo como “tradicional” e/ou “neotradicional”.
Seria o caso de falar em grupos indígenas e “populações tradicionais”, em adiç distintiva. Ou então, se incluímos os grupos e sociedades indígenas sob a “tradicionalidade”, é provavelmente + adequado e descritivo denominar como “populações neotradicionais”, tal como o faz A. Begossi, os grupos de caiçaras, de remanescentes de quilombos, os caboclos (da Amazônia), e outros. Como sabemos esses grupos já carregam em sua formaç sócio-cultural uma bagagem, digamos assim, de hibridaç ou fusão entre culturas distintas. Uma hibridaç certamente de outro tipo q a referida anteriormente para os movimentos nas arenas de disputa.
Agora, o híbrido é por relaç à definiç de “populações neotradicionais” como “as q possuem tanto conhecimentos tradicionais quanto uma bagagem de novos conhecimentos provenientes de fora” (BEGOSSI, op.cit., p.207). (Já mencionamos q é questionável falar em dentro e fora para “neotradicionais”, porque não deixa de ser um elemento de substantivaç identitária de formações sócio-culturais estruturalmente relacionais; e aí o “dentro” e o “fora” são antes representações conatas à – ou elas mesmas expressões da – dinâmica relacional. Mas esta ressalva pode ser deixada de lado, para o caso, em proveito de contribuições de interesse.) No exemplo corriqueiro, os caiçaras da Mata Atlântica “são descendentes de índios e portugueses, e possuem cultura e tecnologias q derivam dessas ascendências” (idem, p. 209; grifos meus). Combinam-se aí “influências africanas” em especial na religiosidade (em certas “festas religiosas”), herdadas de escravos africanos chegados há alguns séculos na região (cf. idem). Menos corriqueiro é q, para grupos caiçaras entre o norte do litoral paulista e o sul do litoral fluminense (e, quanto a isso, ou quanto a outras influências + recentes, nada sei a respeito de caiçaras do Vale do Ribeira), tb houve, no século XX, “influências” de imigrantes japoneses “particularmente através de novas tecnologias de pesca, como os cercos” (cf. idem). Enfim, o exemplo quer mostrar q sempre existem “composições” entre conhecimentos locais e adquiridos por influências.
Também sempre existem “graduações” nessas “composições” de conhecimentos diversos, e em épocas e “proporções” diversas, nos vários grupos denomináveis como “neotradicionais”. Por exemplo, quanto aos “sistemas neotradicionais de manejo de recursos” (idem, p. 207), os mesmos podem ser definidos como apresentando “tanto elementos de sistemas tradicionais como de sistemas recentes e emergentes” (como no caso exemplificado dos cercos na pesca em certas regiões, entre vários outros exemplos), mas “todas as populações apresentam novas variedades de conhecimentos adquiridos”, e “podem existir diferenças, ou melhor, uma graduaç na proporç do q é velho e do q é novo” (idem). Nesse seu texto, Begossi está interessada em equacionar, em abordagem de Ecologia Humana, a relaç entre os padrões culturais desses grupos e a “resiliência ecológica” de ecossistemas.
[1] No equacionamento dessa relaç, ressalta-se, para o argumento da autora, a importância da “fronteira cultural flexível das comunidades neotradicionais” (BEGOSSI, idem, p. 208), o q seria uma característica em favor da sua maior acessibilidade a “novos valores culturais, o q pode levar a adaptações e práticas culturais q auxiliem a aumentar a resiliência ecológica” (idem).
A idéia principal q preside a abordagem de Begossi é formulada na equaç de q “comportamentos culturais podem influenciar a resiliência ecológica” (idem, p. 206). Ao q tudo indica, a noç básica q, por sua vez, apóia esse tipo de abordagem é a de q “foi a flexibilidade do comportamento q permitiu aos seres humanos se adaptarem a diferentes ambientes” (idem). Essa é justamente uma noç de ambiente incompatível com a q temos em vista, para a perspectiva em tentativa de enunciaç. E, se entendemos minimamente os mil movimentos dos mil braços de Latour, tal acepç é continuadora de uma “epistemologia (polít)”, aquela da soluç mononaturalista e multiculturalista. Talvez não seja o caso de esperar q venha da parte de especialistas em Ecologia Humana uma “ecologia polít” ou uma “epistemologia polít” (como grafa Latour, retirando os parênteses para a proposta q ele faz para uma epistemologia efetivamente de “ecologia polít”). Mas o mesmo não poderia ser dito quanto a sociólogos e tanto + quanto a filósofos e sobretudo antropólogos, se é q a Antropologia pretende continuar sendo a + auto-crítica dentre as disciplinas dos saberes (cf. CASTRO, O Nativo Relativo) e com pretensões monistas.
CONTINUA.... tópico II não apresentado aqui na íntegra.
E seguem os dois últimos tópicos, tb não apresentados aqui:
III – Exemplaridades de uma experiência
IV – Para uma perspectiva de desenvolvimento (do) social.
PIRACICABA, agosto de 2005.
[1] A “resiliência” é definida como sendo “determinada por uma seqüência de liberação e re-organização” no manejo de “recursos” dados pelos ecossistemas; isto é, “como a magnitude de perturbações que podem ser absorvidas antes que mudanças em um sistema ocorram”, quer dizer, antes que perturbações excessivas provoquem mudanças, ao que parece em sentido de degradação, dos ecossistemas (cf. idem, p. 206). A abordagem de Begossi em linhagem disciplinar da Ecologia Humana participa da interdisciplinaridade das linhas de pesquisas do NEPAM, inclusive com contribuições citadas na pesquisa disciplinar sociológica de Ferreira (op.cit.). Provavelmente é um dos exemplos de direções de pesquisa científica legítima, certamente entre muitas outras, que acabaram por ser minimizadas pela colonização do debate acadêmico pela “reinvenção da tradição”.

Um comentário:

Prof. Sirléia Rosa disse...
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